31.10.16

Lamento de um imperfeito

31.10.16

Há dias que o sol brilha lá fora, o céu está limpidamente azul, entretanto, dentro da gente tá tudo bagunçado. São nesses momentos de inefabilidade, de profundo exercício de silenciar um pouco e escutar no âmago das minhas experiências humanas, que descubro: não sou perfeito! Quando eu era criança, aqueles que me rodeavam, faziam-me acreditar no contrário. Dançava alguma toada de boi-bumbá, que meu sorriso largo se estampava por receber cachoeiras de elogios. Diziam que tinha vocação para dançar. Na escola, ganhava alguns outros elogios pela caligrafia bem desenhada e ainda pelas notas que atingia, e assim era acreditado como o “menino inteligente”. E outra: era reconhecido como “menino de ouro”, por ter um coração tão cheio de pureza. E eu, me fascinava com minha tamanha perfeição. Contudo, a vida, como boníssima escola, começou a mostrar-me a verdade. A duras penas, fui entendendo que não era tão perfeito o quanto acreditava. Nos relacionamentos não sou tão bem realizado como eu esperava. Meu coração é um verdadeiro abrigo, que de vez em quando precisa de ordem e limpeza.
Inacabado, indigno e fraco. Tantas certezas me atormentam perante uma sociedade que deseja ver meus passos de danças perfeitos. Que vergonha eu sinto, quando tenho vergonha de dizer e mostrar-me diante dos outros quem sou. Hoje, neste dia seis de junho, rezo nessas minhas palavras, esses sentimentos tão vulneráveis e intrépidos, e persisto a não ter receio de olhar minhas tantas imperfeições que rebentam das minhas decepções. Que eu não perca a esperança de plantar, simplesmente porque a árvore não deu frutos. Aliás, é deleitando da sombra dessas árvores que faço suscitar o verbo. Estas palavras brotam de uma árvore que não deu os frutos que eu desejei. Sou um eterno caminheiro, aprendendo a amar a minha humanidade cheia de imperfeições. Aqui, meu coração cheio de cicatrizes, aos poucos, vai cantando: “Não sou perfeito, estou ainda sendo feito. E por ter muito defeito, vivo em constante construção”.

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Entre notas de rodapé - 2017

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