1.10.16

Carta em terceira pessoa

1.10.16


Ele faz questão de lembrar. Aquele domingo. Puxa pela memória, e ela o trai. Algumas dezenas de vezes. Ele precisa reconstituir cada passo, cada olhar, cada meio-sorriso...o abraço. Ao fundo tocava a música que ele gostava de ouvir. A passos lentos, ele foi afastando-se, recuando, deixando-se levar pelo instinto de proteção. Aquele sorriso bonito, aos poucos foi se apagando. Pensando bem, empalidecer o que fulgurava tão forte não deve ter sido tarefa fácil. O amor sempre vai embora aos poucos, é impossível assassiná-lo numa só pancada. 
A luz do ambiente brilhava e todos estavam alegres tomando licor de pêssego. Muita gente ali, copos que brindavam, mesa farta. Ele sempre dizia que se comungava dos doces e salgados e que tinha ânsia de conhecer pessoas inteiras.
Em direção ao desfiladeiro, ele saiu. Foi tudo tão rápido, que nem teve a capacidade de perceber os sinais que estavam tão à mostra. As palavras vazias que falavam dele, que sempre trouxeram significado a tudo, magoaram-me mais do que o teu completo azedume nalguns dias.
Aqui, no calor do silêncio dele, ajunto as notícias com um amigo aqui, outro ali, do que se realiza contigo: pequenas felicidades, realizações, viagens...essas coisas tão tuas. Ao rascunhar essas palavras, descubro que ainda é possível recuperar terrenos queimados. Que é possível transformar a paisagem. Que boa notícia! Ele nunca receberá esta carta. Até porque, ela é somente uma capsula do meu tempo pessoal. Ela é apenas um capricho meu.
Mas, de certa forma, essas palavras trazem – ainda que bem pouco – a tua calidez de volta. É a aragem quente que adentra no meu quarto. Não dura nem dois segundos.

Ai, seu moço... 
Só te desejo muito desejo... 
Espero que não pares de desejar!

Um forte, imenso abraço, cheio de afago.

João Miguel

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Entre notas de rodapé - 2017

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