30.9.16

Os Taciturnos bancos da pracinha

30.9.16

(Ouça a canção 'Nossas histórias' de Oswaldo Montenegro enquanto lê o texto)

Outro dia saí para caminhar, espairecer um pouco, pois precisava respirar outros ares. Já era noite e cheguei à pracinha do bairro. Sentei num de seus bancos e fiquei observando o movimento, no calor do meu silêncio. A brisa tocava meu rosto como se fosse ternos beijos. A praça é uma graça. E por menor que seja sempre tem um banco à espera de uma pessoa ou de um acontecimento. Pode ser a flor rosa do ipê que recai sobre o banco, uma coisa cravada no solo, onde ninguém repara na sua pintura, seu modelo, suas minúcias. Mas eles sempre estão ali. Quietos e envergonhados. Vigilantes e fatigados. Fatigados de escutar histórias, de conseguir sustentar o peso de tantos e tantas que por ali passam diariamente. Alguns sentaram, outros deitaram. De todos estes que passaram deixaram um átimo de vida, um pouco de si. 
Ali sentado, reparando os outros bancos que estavam vazios, fiquei ruminando: imagina quantos amores foram gestados e outros pereceram? Será que muitos poetas se esbarraram com os versos perdidos naqueles bancos? Quantas flores daquele ipê caíram e o enfeitaram ainda mais? Quantas vidas foram celebradas com abraços demorados? Aqueles bancos veem a loucura da vida diariamente e assistem tudo isso parados. Eles só se movimentam quando removidos ou esfacelados pela rispidez dos viandantes. 
Ah, eu aguardei histórias ilustres naqueles bancos e elas nunca se manifestaram. Aliás, algumas até vieram. É bem verdade que a gente nunca sabe precisamente as histórias que nos aguardam. Há histórias já contadas. Apenas tiveram um “pause” e foram retomadas. Mas não há razão para perder a esperança. Ela caminha de mãos dadas comigo. O amor não tem necessidade de chegar, o amor já está. Ele já é. Ele é um taciturno banco da praça, sozinho e escabreado que aceita todos que passam por ele, mas só acolhe os que desejam ficar e poetizar a vida.

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