3.7.16

A poesia também pode (e deve!) usar sandálias

3.7.16

Esses dias frios aqui em Belo Horizonte (nem tão gelados assim) me despertam algumas palavras que posso tocar, rascunhar, minutar. A caneta quando se atreve a se achegar na folha em branco do meu caderno, não solta a tinta azul. Ela liberta minha sensibilidade, faz fluir com sua cor intensa as histórias de minha jovem vida. O que escorre e mancha o papel a gente não escolhe. Nunca! A caneta apenas escrevinha o que reverbera no âmago da nossa existência.

Na tintura da caneta tem muito do que escutamos. Na tintura da caneta tem muito do que vemos, lemos, do que amamos. Na tintura da caneta tem as nossas desilusões, as partidas, negligências e acolhimento. Uma vez me disseram que a escrita é um tipo breu translúcido: nos mostra o que não temos bravura suficiente de despertar. Se por um lado nos resguarda com personagens e histórias que provavelmente emergiram das fantasias, por outro abre desembrulha um pacote de presente sem que a gente perceba. Eu sempre fui mais atracado aos autores e às autoras que simplificam a poesia. Destes, cito: Cora Coralina, Adélia Prado, Manoel de Barros, Rubem Alves. Deleito-me naqueles/as que falam da profundidade com uma ostensível quimera. Não que eles sejam descomplicados e de fácil leitura, mas que não tragam o absolutismo do discurso, a mesquinhez na palavra.

A imagem do poeta que todos nós - ou pelo menos grande parte – fazemos em nenhum momento me cativou: óculos arredondados, de paletó, amargura, solidão, e mais amargura e mais solidão. Isso tudo nunca me apeteceu. Pra que tanta altivez para escrever poesia? Alguém pode me responder? Afinal de contas, a poesia também pode (e deve!) usar sandálias sempre que puder. E, se possível, que ela - a poesia - caminhe de pés descalços, de vez em quando, sentindo a brandura da terra que pisa.

Um comentário:

  1. Maria Inês Pereira4 de julho de 2016 17:13

    Concordo que a poesia não tem necessariamente que ser austera e refletir solidão, mas que isso não seja uma critica aos que a vida castigou e que por caminhos diversos foram se tornando sós. A poesia que cada escritor traz na alma refletirá a sua essência, a beleza está em ser ver-da-dei-ro, Alegre ou triste, calçado ou pés no chão, circunspecto ou atirado, "cada um de nós compõe a sua história" e elas graças a DEUS são diferentes como diferente é a maneira de ver o mundo com ou sem óculos,Quando tiveres 42, não escreverás mais como aos 24, e aí está a beleza da vida e da poesia.

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Entre notas de rodapé - 2017

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