3.6.15

“Pra ser honesto só um pouquinho infeliz!”

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De vez em quando, algumas lembranças tendem a retornar a despertar dores. Talvez seja por isso que nunca as revisitamos. Lembrei-me aqui de Tolstoy: “Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. [...] Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava segurança em nossa vida tranquila”. Há dores que precisam da nossa atenção. E por mais que a “dor doída” esteja presente no caminhar diário, há sinais vermelhos nos aconselhando a ameaça do acidente. “Igor, você está feliz?” é a constante pergunta que as pessoas me fazem. E elas sempre esperam que meus olhos brilhem e que minha boca profira: “Sim, estou!”. Até porque, quem ama quer ver a felicidade impressa no semblante do amado. Se eu contestar apenas com um “sim”, porventura não terei razões suficientes para legitimá-lo. Sobre isso tive um insight e lembrei-me de um trecho da canção Giz do Renato Russo: “Pra ser honesto só um pouquinho infeliz!”. Por consequência, todas as vezes que me indagam sobre minha felicidade, permito que um silêncio inunde e reverbere em meu ser. Só depois arremato: “sou um eterno construtor da minha felicidade”. Adélia Prado já proferia: “Não quero pão, eu quero é fome”. Deus me defenda do aprazimento que mata meus desejos! Que as dores dos meus dissabores me arrastem, instigue meus afetos a buscar o meu íntimo desejo: a busca pela essência da minha existência e da minha felicidade. Até que eu não descubra os enigmas dos caminhos que percorro, olhando em cada ato um significado maior, deixando que as dores me reencontrem continuarei a afirmar e cantar:

Pra ser honesto só um pouquinho infeliz!

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Entre notas de rodapé - 2017

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