2.2.15

D. Walter, para o senhor ser saudade, não falta mais nada

2.2.15

Há quase cinco meses do falecimento do meu avô, senti a necessidade de escrever sobre ele – uma figura importantíssima para a minha formação humana. Vô Walter parece ter nascido com a mesma idade que nos deixou. Setenta e três anos. Não consigo imaginá-lo fazendo birra quando criança no seringal, e muito menos inventando uma desculpa esfarrapada por ter feito alguma estripulia. Parece que nem a puberdade se encorajou de se apossar no seu corpo. Fico a imaginar ele conhecendo minha avó. Se ele pudesse, ajudaria a todos que encontrasse pelo caminho. Dom Walter (como costumávamos chamá-lo), veio ao mundo com setenta e três anos e ponto final! Se ele fosse um juiz, faria lei irrevogável. Mudaria a constituição! Seu cérebro devia ser bem desgastado, tadinho. Mas de tanto ser usado! Sortudo ele, por saber brincar com as palavras, moldá-las, e poetizar a vida do caboclo amazônida. Cumpriu com dignidade o mister de vereador e também de rábula. O pouco tempo de escola não impediu que fosse sábio e inteligente. O seu coração nunca bateu por grandes corporações. Vovô parece ter nascido com a mesma idade que me deixou e com aqueles “jargões” que só ele tinha, contando suas histórias inusitadas da época do seringal e de suas vidas amorosas. Eu me divertia! (Risos). Ah, aqueles cabelos grisalhos, já tão ralos em função da careca – mas se não fosse ela, ele não teria cara de avô. O sorriso tão bem construído combinava com o homem que ele era. Queria poder encontrar meu avô numa dessas barraquinhas. Mas, nele, nada seria barato. Aliás, sequer teria preço. Só queria que fosse fácil reconstruí-lo. Ele seria exatamente igual, sem uma ruga a mais ou a menos. Só colocaria uma pitada de um pouco mais de eternidade. E se fosse pedir muito pedir eternidade, eu só queria que ele tivesse apenas um coração que não pifasse da noite pro dia.

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Entre notas de rodapé - 2017

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