20.6.14

"O que a memória amou fica eterno..." Discurso dos oradores da turma

20.6.14
Primeiramente, gostaríamos de cumprimentar os colegas filósofos e antes de mais nada, agradecer a confiança e o carinho que tiveram com Igor e Carmen na hora da escolha de quem representaria a turma nesse momento.
Contudo, antes de iniciar, deixo claro que esta fala, com certeza, não substitui a oportunidade de cada um/a fazer uso deste púlpito para manifestar seus mais sinceros sentimentos, que emergem aqui e agora.

Pais, familiares, professores, amigos e amigas, colegas, boa noite!

A escolha. Os estudos. Vestibular. Lista de aprovação. Matrícula. As rodas de discussão. As leituras, as confraternizações, o trote, o chimarrão, os seminários, provas, resenhas, artigos científicos, observações, as loucuras de final de semestre, o projeto monográfico, as conversas no saguão
e em frente da faculdade, o TMC, reunião e escolhas junto à comissão de formatura. A banca. Esta solenidade.

Palavras: momentos que evocados nos remetem a diferentes e gostosas memórias! Já dizia o poeta: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como um mar num indo e vindo infinito…”

Hoje vocês, meus caros amigos, desejam ouvir um discurso mais despojado, capaz de extrapolar os limites de fazer com que nossos entes queridos e a comunidade em geral e aqui presente, compartilhem da principal razão do nosso presumível sentimento de alegria e contentamento.

Se vocês nos permitem, dirigimos a nossa palavra para aqueles que foram nossos provedores, aqueles que foram nossos esteios incondicionais ao longo de todos os anos de nossa formação; aqueles que, muitas vezes sem nem compreender muito bem que troço seja esse que os filhos estudam – filosofia – ou qual seja a sua importância de utilidade, não deixaram jamais de nos apoiar, provavelmente não sem uma cota considerável de sacrifício material, financeiro, psicológico e emocional.

Queridos pais e familiares, nosso orgulho e penhor! Obrigado pai, mãe que nos deram a vida e nos ensinaram a vivê-la com dignidade. Obrigado a vocês que iluminaram os caminhos obscuros com afeto e dedicação para que os trilhássemos sem medo e cheios de esperanças; que se doaram inteiros e renunciaram aos seus sonhos, para que, muitas vezes, pudéssemos realizar os nossos. Gratidão pela longa espera e compreensão durante nossas longas viagens. A vocês, pais por natureza, por opção e amor, não bastaria dizer, que não temos palavras para agradecer tudo isso. Mas é o que nos acontece agora, quando procuramos arduamente uma forma verbal de exprimir uma emoção ímpar. Uma emoção que jamais seria traduzida por palavras. Dedicamos e alcançamos essa conquista por e para vocês. Agregamos ao mosaico formado por tudo o que nos foi ensinado desde nossa tenra idade e revertemos em realizações aqui e agora. Vocês têm participação direta e efetiva por termos chegado a esse barco.

Professores, se ser pai/mãe significa, no sentido elementar, ser causa eficiente do vir a ser de alguém, vocês também colaboraram para isso, no que diz respeito ao aspecto intelectual e moral. Sabem aquela generosidade que só os pais têm? Querer que os filhos consigam ir mais longe do que eles próprios foram? Tenham mais chances na vida, conheçam mais coisas e usufruam mais bens? Pois também vocês formaram discípulos e nos ajudaram a seguir adiante, nos ensinando, por intermédio de discursos e gestos, a essência da saga filosófica. Poucas foram as oportunidades que tivemos para agradecer-lhes por tão grandioso trabalho. Portanto, nesse momento de alegria no qual celebramos o final de uma longa etapa, gostaríamos de prestar-lhes uma justa e sincera homenagem, pela amizade, pelo profissionalismo ou pelo simples convívio. Vocês, com dinamismo e paixão, lapidaram nossas inúmeras dúvidas, transformando as dificuldades em algo significante, fazendo aflorar nossa capacidade de aprender, de realizar, de vencer. Vocacionados na arte de ensinar, estavam sempre nos apontado o caminho, contagiando toda a turma, sendo, dessa forma, os maiores responsáveis pelo nosso desejo de prosseguir e pela nossa vitória hoje alcançada. Gratidão a vocês professores Paulo Carbonari, Nilva Rosin, Valdevir Both, José André da Costa, Iltomar Siviero, Diego Ecker, João Wohlfart, Írio Conti, Gervásio Backes, Júlio César Werlang, Maicon Rossetto, Olmaro Paulo Mass, Roque Zimmermann, grandes mestres, que marcaram indubitavelmente, os diferentes momentos de nosso caminho trilhado e nos ensinaram a amar a sabedoria.
Olhamos com muito carinho e respeito para esta casa que nos acolheu, como mestra e mãe, que durante estes três tornou-se para nós guardiã e difusora do tesouro do conhecimento e por nos ter proporcionado este “espaço de encontro em tempo de busca”. Obrigado, dedicados e atenciosos funcionários de nossa Instituição, que cooperaram na soma dos esforços para a melhoria do nosso cotidiano.

E se olharmos para esta assembleia, veremos nossos amigos e amores que também nos acompanharam nessa caminhada; que aceitaram nossas omissões, compartilharam de nossas lágrimas e sorrisos e dividimos, agora, o mérito desta conquista. As alegrias de hoje também são suas, pois seu amor, estímulo e carinho foram as armas desta vitória. Queridos, presentes na árdua caminhada da vida, nós construímos essa ocasião aglutinando incentivo que cada um dispensou na confiança própria da nossa condição de cumplicidade. A vocês, nosso obrigado: pelos apoios, pela vida partilhada, pela tolerância e pelo carinho. E principalmente, por hoje estarem aqui junto conosco.

Caros amigos filósofos “Agora já não somos mais os mesmos. Estar aqui agora não foi nada fácil, eu sei. E suponho que tenha sido um pouco mais difícil do que vocês imaginam...”.Nós sabemos que o término do curso superior não é somente uma passagem para outra fase de nossas vidas, é bem mais que isso. Contrariamente a todas as etapas escolares já vencidas por nós, o fim de um curso superior nos leva a uma realidade: que muito de nós seguiremos por caminhos diferentes.

Independente do caminho que cada um escolher, dos tantos que a filosofia nos permite vislumbrar, com certeza todos temos um caminho que é comum: a busca para formar sujeitos críticos e emancipados. E por isso, meus amigos, faço-vos um convite: nos autorizemos a falar de filosofia, a fazer filosofia, a construir mudanças e refletir criticamente o que nos cerca.

A esperança nos guiou desde o início quando nem pensávamos em ser quem somos, quando nosso olhar era muito insípido para pensar e alçar voos tão altos. Recordam-se dos nossos primeiros passos? Quando começamos a caminhar, nossos passos não eram firmes. Estávamos conhecendo o novo modo de perceber e interpretar a realidade. Nossas antigas convicções pareciam tão pequenas diante dos robustos argumentos que aprendíamos. Sentimos medo e nos perguntávamos: estamos realmente no lugar certo? Será que temos capacidade de prosseguir? Não foi fácil atravessar o deserto, ainda mais quando víamos alguns companheiros ficarem ao longo da caminhada.

Somos humanos! Somos demasiadamente criaturas finitas e sabíamos de nossa condição fugaz e das pedras que deveríamos transpor, mas continuávamos a sentir no amago do peito as saudades da eternidade. As várias batalhas pessoais e coletivas, foram sendo vencidas, como quem ergue uma torre com pequenas pedras lapidadas com as mãos: as mãos que constroem um mundo novo todos os dias, no lagar da vida.

Definitivamente nos voltamos para o futuro. O que era sonho se tornou realidade. A nossa vida germinou. Nem temos as mesmas impressões sobre o mundo e sobre nós mesmos. Muita coisa mudou e nós mudamos também. Porém, devemos e podemos afirmar: somos os mesmos sonhadores, somos a nossa história, somos a nossa família, somos os nossos amigos. Um ciclo de vivências e situações que enriquecem nossa história está sendo concluído. Embora não tenha sido em uma sala de aula que aprendemos as lições mais importantes de nossas vidas, foi ali que conhecemos grandes amigos, realizamos proezas e participamos de momentos e experiências que ficarão eternizados em nossa memória.

Este foi um caminho recheado de sonhos, escolhas, angústias, discussões, alegrias, e até algumas incompreensões. Obrigado amigos pela convivência, pela amizade que construímos ao longo destes três anos. Tantas memórias ecoam neste instante.

Cada momento vivido nessa louca correria em busca de um objetivo em comum: valeu a pena. E agora que não mais iremos de mãos dadas e juntos continuar a jornada de nossas vidas? E agora que deixamos, para também seguirmos outros caminhos, os companheiros de longa data? E agora que a estrada se estende ao longe até se perder de vista?

Como afirmara Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Caminhemos, jovens filósofos. A utopia, o sonho, serve para isso, para nos mover adiante. Talvez um dos sentidos mais importantes de estarmos por aqui. Mesmo conscientes da impossibilidade de nos esquivarmos da morte, nos engajamos na vida, acreditamos que a caminhada pode ser bonita e a experiência neste mundo significativa.

Não podemos esquecer que, embora a alegria do presente exista, o futuro reserva outras a mais. Se antes a força do conjunto amparava as quedas, hoje estamos preparados para aguentar as tramas da vida. Deixar para trás momentos plenos de união e companheirismo é doloroso, mas não podemos nos estagnar no tempo. É necessário seguir em frente, buscar nossos objetivos com muito esmero e dedicação, para encontrar o novo. A amizade de tantos anos fica, assim como o respeito e as boas lembranças serão eternizadas. O tempo não pára e precisamos dar continuidade à vida.

Talvez uma das coisas mais difíceis da nossa vida seja o dizer adeus. Adeus ao amigo que partiu. Adeus ao gozo da infância e das suas regalias. Adeus à ilusão de um amor que se desfaz ao vento. Adeus a um lugar, a uma vida, a um sentimento. Adeus.

Entretanto, dizer adeus é necessário. Nós seres humanos temos um péssimo hábito de julgar os ocorridos em nossa vida em bons ou ruins. Mas todos são bons e dizer adeus prova que algo foi concluído, trazendo sempre a promessa do recomeço. E recomeçar é importante, é um passo à frente, uma nova história a ser escrita, mesmo que as velhas nos deixem certo ar de nostalgia.

Afirmamos com veracidade que todos nós concluintes aprendemos muito mais daquilo que estava previsto na grade curricular do Curso de Filosofia. Somos filósofos na medida em que nos deixamos afetar pelo espanto que a própria filosofia nos traz. Porém, alguns se sentem tão afetados que desejam aventurar-se na tentativa de desvendar os mistérios deste espanto. Dentro de um grupo, estamos nós, que hoje concluímos nossa graduação em filosofia. É neste sentido que esta noite se reveste de um significado todo especial. Nessa direção, podemos recorrer às palavras de Guimarães Rosa: “o real não se encontra na saída e nem na chegada. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Sim! Estamos no meio dessa travessia. Não chegamos ainda, mas partimos. Partir é uma atitude que deve ser realizada no presente, e o fato de termos tomado essa decisão fez e faz toda a diferença. É ela que nos permite alcançar, com entusiasmo, novas veredas e nos deleitarmos com a alegria e o prazer de termos chegado aqui.

Temos um espanto que nos atrai, ou seja, que nos deixa fascinados, mas também temos um espanto que nos rebela, que nos decepciona. Seja qual for o passo que assumimos de agora em diante, como amantes do saber, precisaremos nos posicionar diante de ambos os espantos.

Edegar, Elias, Érico, Jean, Maicon, Meir, Pablo, Ricardo, Felipe, Felipe Filippini, Márcia, jovens filósofos. Temos certeza que a partir de agora passaremos a sentir saudade de tudo isso que contávamos o dia para que terminasse.Que a gente sempre queira mais, mesmo que às vezes seja duro ter que caminhar. Sim, estamos certos de que cada um e cada uma saberá, solidariamente, procurar os melhores caminhos e as melhores parcerias para continuar a filosofar.

Que possamos em muitos momentos pegar nossas fotografias e memórias dispersas em nossas mentes e rememorar tudo o que de importante vivemos e experimentamos, das grandes amizades que construímos. Só lembremos e falemos de coisas boas. Valeu a pena? “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, lembra Fernando Pessoa. “O que a memória amou fica eterno”, assim nos recorda Adélia Prado.

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