O presente trabalho pretende explorar de forma panorâmica a obra do filósofo da religião e teólogo inglês John Hick e sua posição na atual discussão sobre o diálogo interreligioso, principalmente em seu conteúdo filosófico – pois Hick apresenta uma rica influência neokantiana que é aplicada em sua teoria do pluralismo religioso. Todavia antes de adentrarmos ao pensamento de John Hick, pretendemos, ainda que de forma superficial, dar notícia sobre o pluralismo na teologia das religiões, para justificarmos o título do presente trabalho. 1. O Pluralismo na teologia das religiões
Com o advento da pós-modernidade e a aceleração dos meios de transporte e comunicação, o antigo mundo, centralizado nos costumes ocidentais, onde a diferença era desconhecida ou ignorada foi colocado por terra. Com os novos estudos e métodos surgidos nas ciências do homem, que tendem ao respeito com relação as mais variadas culturas – diferentemente de outras épocas em que se tinha a cultura ocidental como a mais evoluída (dada a aplicação do evolucionismo como método de pesquisa social) – o mundo contemporâneo se mostra um local de diferenças, onde a alteridade se impõe como regra.
Sendo desta forma a religião não poderia escapar deste novo desafio que se impôs com os novos tempos, e como religião dominante no mundo ocidental esta imposição se centra especial mente ao cristianismo – que trabalhou durante muito tempo (e ainda trabalha em alguns de seus meios) como religião absoluta fora da qual não poderia haver salvação, ou de forma inclusivista girando entorno de um cristo-centrismo.
Segundo Dr. Faustino Teixeira em seu livro “Teología de las religiones” : “A posição pluralista surge na busca de um “novo ângulo” de compreensão do cristianismo propondo uma troca de paradigmas renunciando uma posição cristocentrica para se adaptar a uma nova visão segundo a qual todas as religiões, inclusive o cristianismo, giram entorno de um mesmo centro que é Deus.
Nas linhas que se seguirão analisaremos a posição de John Hick diante do pluralismo religioso e de que forma tal “revolução copernicana no entendi mento do cristianismo” opera para o diálogo interreligioso. Começaremos com a crítica que o autor faz sobre a idéia da encarnação de Deus e seus perigos para um diálogo entre as religiões contida especialmente nos capítulos 01 e 08 de seu livro “A metáfora do Deus encanado”. Veremos a partir desta obra como se estrutura o pensamento deste filósofo, e teólogo, que pretende abrir de forma radical(a nosso ver) o diálogo entre o cristianismo a e as demais religiões mundiais – com um caráter de respeito às diferenças históricas, geográficas e culturais.
Já logo de início, no prefacio de seu livro, John Hick deixa clara a principal problemática de seu pensamento na citada obra: “se Jesus foi realmente a encarnação de Deus então o cristianismo seria a única religião fundada pessoalmente por este e, como tal é incomparavelmente superior a todas a demais religiões. Colocando também já de começo suas principais criticas, a saber:
“1) Jesus não ensinou aquilo que se tornaria a compreensão cristã ortodoxa a seu respeito;2) o dogma da das duas naturezas de Jesus, uma humana e outra divina, demonstrou sua incapacidade de se explicar de maneira satisfatória;3) historicamente o dogma foi usado para justificar grandes males humanos; 4) a idéia da encarnação divina é melhor compreendida como idéia metafórica e não literal – Jesus incorporou, ou encarnou, o ideal de vida humana vivida em resposta fiel a Deus (…);5) podemos corretamente entender Jesus, assim entendido, como nosso senhor, como aquele que se tornou Deus real para nós e cuja vida e ensinamentos nos desafiam a viver na presença de Deus;6) pode-se considerar um cristianismo não-tradicional, baseado nessa compreensão de Jesus, como uma entre as diferentes respostas humanas à realidade transcendente última que denominamos Deus, podendo servir melhor ao desenvolvimento da comunidade mundial e da paz mundial do que um cristianismo que continua a ver a si mesmo como locus da revelação final e portador da única salvação possível para todos os seres humanos.” [HICK, 2000; 09]
Hick já demonstra que sua idéia principal não é diminuir o cristianismo, mas elevar as religiões mundiais a caminhos salvíficos em pé de igualdade com o esse e defender que Jesus é paradigma de salvação apenas para aqueles que se colocam no mundo como cristãos. O que deseja o autor é um cristianismo não-tradicional possibilitador de diálogo e que ofereça uma resposta igualitária para a pergunta sobre o que em obras mais recentes ele chamará de Real transcendente – pois para o pluralismo(radical) de Hick a própria palavra “Deus” reduz a possibilidade dialogal. O autor reconhece que a posição tomada é controversa, mas diz que seu objetivo não é polarizar posições, mas provocar uma discussão pública e fazê-la prosperar.
Para o teólogo John Hick o mundo de hoje se encontraria em um “ponto móvel de reflexão entre a estrutura de crença cristã que dominou o mundo ocidental por muito tempo e novas estruturas ainda em arranjos”[HICK,2000:11]. E, para o mundo teológico, a cristologia se tornou de seus principais pontos de atividade – afirma Hick – , pois como teólogo assumidamente pluralista na questão do diálogo interreligioso ele sabe que grande parte do que separa o mundo cristão (me arriscaria a dizer principalmente ocidental) dos outros “mundos” (ou religiões) é a visão tradicional do Cristo como encarnação de Deus é extremamente prejudicial, já que assim somente o cristianismo seria a única religião fundada pela própria divindade também seria a única com característica de realmente levar seu seguidores à salvação. Todavia, hoje,em um mundo “sem fronteiras” essa visão já não é mais satisfatória e “a busca por uma nova autocompreensão cristã em resposta às múltiplas modificações na consciência humana tem se desenvolvido de várias maneiras…” [idem] entre os vários movimentos ocorrido nesta busca de mudança o filósofo destaca um que em que ele foi protagonista, ocorrido na Inglaterra no ano de 1977, com o lançamento de um volume de ensaios chamado The Myth of God Incarnate, que escandalizou o movimento teológico de então, pois já trazia o tema central da cristologia de Hick: a tese histórica de que Jesus nunca teria ensinado que era Deus encarnado e que esta teria sido criada pela igreja.
Uma das coisas que Hick insiste sempre em seu livro, para defender sua teoria, é que a teologia é uma criação humana, e como tal, é sujeita a questões históricas. Nas palavras do autor: “Ela é produto de homens e mulheres devotos e fieis(…), alguns deles extremamente inteligentes e atentos – e outros menos -, e que foram, como todo mundo, capacitados mas também limitados pelos pressupostos e recursos cognitivos de um tempo e de um lugar específicos. Normalmente se pode dizer, a partir de seu modo de pensar, a que período e subtração pertenceram. E porque a teologia é um artefato humano, ela mudou quase a ponto de não podermos reconhecê-la a medida que mudaram as circunstâncias da vida humana.” [HICK, 2000; 19]
É, pois, à crítica a história do entendimento de Jesus como Deus encarnado que Hick, primeiramente se direciona. Outro forte argumento de Hick é que: “A nova consciência global – surgida no após guerra – propiciou uma consciência mais sensível no tocante à variedade de culturas e religiões dentro da família humana”[HICK, 2000: 20]. E que aquilo que é proporcionado pela fé cristã a seus devotos, também a fé fundada sobre outros pressupostos religiosos igualmente proporciona a seus fieis, que no estudo de suas tradições filosóficas, teológicas, místicas e religiosas em suas escrituras sagradas, não podemos constatar que nossas escrituras cristãs e nossa tradição “sejam de ordem diferente ou superior”[Idem]. Para ele, esta nova consciência solapou a possibilidade tradicional do sentimento cristão de superioridade, “colocando um ponto de interrogação diante do dogma de que Jesus de Nazaré foi Deus encarnado”[HICK,2000; 21].
Hick afirma que grandes males morais causados pelos adeptos das religiões são validados pelo ensinamento oficial dessas mesmas religiões, usa para exemplificar este mal imposições feitas por varias crenças entre eles as divisões de casta hinduísta, punições desumanas ocorridas em alguns países mulçumanos, baseadas na interpretação do Corão. Estes exemplos são dados para logo em seguida o autor tratar do principal tema de seu livro; “os efeitos colaterais históricos do dogma da reencarnação”. Diz Hick que os males causados – por exemplo, anti-semitismo, exploração colonial, patriarcalismo ocidental etc. – não foram causados pelo dogma, criticado por ele, mas sim pela crueldade e cobiça e preconceito dos homens, que o cristianismo revelou-se incapaz de superar. O autor reconhece ainda que, mesmo assim, a doutrina da encarnação não se demonstra falsa, mas que ela foi usada durante séculos para justificar os abusos supra citados. [HICK, 2000; 111,112].
Depois de sua defesa da impossibilidade de aceitação literal do dogma da encarnação divina até o capítulo oito de seu livro, A Metáfora do Deus Encarnado, desconstruindo primeiro esta idéia por dentro da história da própria igreja e depois pela forma como o dogma foi usado fora da igreja pra justificar atrocidades contra a humanidade – como colocado acima – John Hick passa ao segundo momento de sua obra, uma defesa filosófica arrojada dos princípios pluralistas na religião.
Filósofo de argumentação lógica – a molde inglês – Hick explana de forma densa e, ao mesmo tempo, suave sobre suas idéias pluralistas, como veremos.

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