O que gostaríamos de propor em nosso estudo é a aproximação, de forma resumida, da teoria em torno do estado místico, criada por este importante nome no estudo das religiões, nascidos em meados do século XIX . Começaremos nossa análise pelo trecho de uma das cartas trocadas entre James e Henri Bergson. A citação expõe a opinião daquele que foi um dos primeiros críticos e admiradores do pensamento do filósofo e psicólogo norte-americano. Assim Bergson se expõe em sua missiva à Willian James,
Caro confrade Acabo de ler o livro que tivestes a bondade de me enviar – The Varieties of Religious Experience – e que dizer-vos da profunda impressão que esta me causou. Eu a comecei há uma dezena de dias e, desde então, não posso pensar em outra coisa, tão cativante é o livro(…). Lograstes extrair a própria quintessência da emoção religiosa. Sem dúvida sentíamos já que esta emoção é ao mesmo tempo uma alegria sui generis e a consciência de uma união superior; mas qual é a natureza desta alegria e o que é esta união, é o que não parecia nem analisável inexprimível, e é, entretanto, o que vós soubestes analisar e exprimir, graças um procedimento novo que consiste em favorecer ao leitor, pouco a pouco, uma série de impressões de conjunto que interferem e ao mesmo tempo se fundem entre si, no espírito. Acabais de abrir um caminho no qual sereis certamente seguido por muitos outros, mas onde já fostes imediatamente muito longe, que se terá bastante dificuldade para vos ultrapassar e mesmo para vos alcançar. 06 de janeiro de 1903. [BERGSON, 2005: 09].
Como podemos avaliar, dada a opinião do pensador francês, a mística, ou misticismo[1], seria para James um sentimento, ou emoção religiosa, comparada a uma alegria ou consciência de uma união superior. Algo de cunho pessoal, mas que possui uma característica avaliável o que a torna exprimível em palavras e que será o objeto de nosso estudo. Analisaremos o pensamento de James sobre o que ele chama de “estado místico de consciência.”, ou melhor, como se desenvolve a citada série de impressões de conjunto a que se refere Bergson, ou seja, os relatos que na obra de James se multiplicam e se justificam, pois o próprio autor defende, como parte indiscriminável do estudo que apresenta, a experiência pessoal como exclusiva fonte. Para James a “verdadeira experiência religiosa pessoal tem sua raiz e seu centro em estados místicos”[JAMES s.d.:237]. Mas como identificar este estado chamado de “estado místico de consciência ” e diferenciá-lo dos demais estados de consciência? – pergunta sugerida pelo próprio autor, que sugere as seguintes condições para a tal distinção:
O que gostaríamos de propor em nosso estudo é a aproximação, de forma resumida, da teoria em torno do estado místico, criada por este importante nome no estudo das religiões, nascidos em meados do século XIX . Começaremos nossa análise pelo trecho de uma das cartas trocadas entre James e Henri Bergson. A citação expõe a opinião daquele que foi um dos primeiros críticos e admiradores do pensamento do filósofo e psicólogo norte-americano. Assim Bergson se expõe em sua missiva à Willian James,
Caro confradeAcabo de ler o livro que tivestes a bondade de me enviar – The Varieties of Religious Experience – e que dizer-vos da profunda impressão que esta me causou. Eu a comecei há uma dezena de dias e, desde então, não posso pensar em outra coisa, tão cativante é o livro(…). Lograstes extrair a própria quintessência da emoção religiosa. Sem dúvida sentíamos já que esta emoção é ao mesmo tempo uma alegria sui generis e a consciência de uma união superior; mas qual é a natureza desta alegria e o que é esta união, é o que não parecia nem analisável inexprimível, e é, entretanto, o que vós soubestes analisar e exprimir, graças um procedimento novo que consiste em favorecer ao leitor, pouco a pouco, uma série de impressões de conjunto que interferem e ao mesmo tempo se fundem entre si, no espírito. Acabais de abrir um caminho no qual sereis certamente seguido por muitos outros, mas onde já fostes imediatamente muito longe, que se terá bastante dificuldade para vos ultrapassar e mesmo para vos alcançar. 06 de janeiro de 1903. [BERGSON, 2005: 09].
Como podemos avaliar, dada a opinião do pensador francês, a mística, ou misticismo[1], seria para James um sentimento, ou emoção religiosa, comparada a uma alegria ou consciência de uma união superior. Algo de cunho pessoal, mas que possui uma característica avaliável o que a torna exprimível em palavras e que será o objeto de nosso estudo. Analisaremos o pensamento de James sobre o que ele chama de “estado místico de consciência.”, ou melhor, como se desenvolve a citada série de impressões de conjunto a que se refere Bergson, ou seja, os relatos que na obra de James se multiplicam e se justificam, pois o próprio autor defende, como parte indiscriminável do estudo que apresenta, a experiência pessoal como exclusiva fonte. Para James a “verdadeira experiência religiosa pessoal tem sua raiz e seu centro em estados místicos”[JAMES s.d.:237]. Mas como identificar este estado chamado de “estado místico de consciência ” e diferenciá-lo dos demais estados de consciência? – pergunta sugerida pelo próprio autor, que sugere as seguintes condições para a tal distinção:
1. Inefabilidade – a mais jeitosa das marcas pelas quais se classifica de mítico um estado de espírito é negativa. Quem experimenta diz incontinente que ela desfia a expressão, que não se pode fazer com palavras nenhum relato adequado de seu conteúdo. Disso se segue que sua qualidade precisa ser experimentada diretamente; não pode ser comunicada nem transferida a outros. Por essa peculiaridade, os estados míticos semelham muito mais estados de sentimento do que estados de intelecto. Ninguém pode explicar a outra pessoa, que nunca conheceu determinado de sentimento, o que consiste a qualidade ou valor dele…. 2. Qualidade noética – conquanto muito semelhante a estados de sentimento, os estados místicos parecem ser também, para os que os experimentam, estados desconhecimento, estados de visão interior dirigida a profundezas da verdade não sondadas pelo intelecto discursivo. São iluminações, revelações, cheias de significado e importância, por mais inarticuladas que continuem sento; e, via de regra, carregam consigo um senso curioso de autoridade pelo tempo sucessivo. 3. Transitoriedade – os estados místicos não podem ser sustentados por muito tempo. A não ser em casos raros(…). Muitas vezes, quando aparecem, a sua qualidade pode ser apenas imperfeitamente reproduzida na memória; mas, quando se repetem, são reconhecidos; e de uma ocorrência a outra, são suscetíveis de contínuo enriquecimento no que se sente como riqueza e importância anteriores. 4. Passividade – se bem a aproximação de estados místicos seja facilitada por operações voluntárias preliminares,(…), depois que a espécie característica de consciência se impôs o místico tem a impressão de que sua própria vontade está adormecida e, às vezes, de que ele esta sendo agarrado e seguro por uma força superior. (…). Os estados místicos rigorosamente falando, nunca são meramente interrupções. Subsiste sempre alguma lembrança, do seu conteúdo e um sentido profundo da sua importância. Eles modificam a vida interior do sujeito entre os momentos de sua ocorrência… [JAMES s.d.: 238]
Podemos depreender das citações acima as seguintes características metodológicas no estudo do estado mítico de consciência: a) que para (re)conhecer esse estado é preciso que se passe por ele, pois como um sentimento ele, se explicado por padrões de conhecimento intelectuais, será entendido de forma medíocre – dependendo, assim, de um estado análogo de predisposição espiritual; b) carregam em si formas de conhecimento não pertencentes ao intelecto discursivo, ligadas a uma verdade; c) são estados temporários que se tornam reconhecidos pela recorrência, e que por essa mesma recorrência se tornam mais profundos e enriquecidos; d) embora possam ser provocados, só podem ser reconhecidos como estados místicos de consciência se, por sobre suas lembranças residuais, ele modificar a vida interior do sujeito que o experimenta e ao longo de sua vida mística.
O autor ressalta que o rudimento mais simples da experiência mística é aquele produzido em nós – principalmente em nossa juventude – por um poema, “portas irracionais” como ele denomina por onde os mais variados sentimentos se expõem. Já seu estado mais acentuado se parece com um rapto de consciência, onde tudo parece conhecido e novo, paradoxal por assim dizer; “Eles trazem um sentido de mistério e da dualidade metafísica das coisas, um alargamento da percepção que se afigura iminente, mas que nunca se completa.” Como afirma o próprio autor: “os fenômenos são muito mais bem compreendidos quando colocados dentro de uma série, estudados em sua origem e em sua decadência por excesso de madures e comparados com seus semelhantes exagerados e degenerados” [JAMES, s.d.: 238] sobre o uso de drogas para estimular as percepções místicas, afirma o autor: “é a muito tempo estigmatizado como patológico, apesar de certa prática particular e certos lampejos líricos de poesia parecerem dar testemunho da sua idealidade(…). a consciência bêbada é somente uma parte da consciência mística, e nossa opinião total sobre ela precisa encontrar o seu lugar em nossa opinião sobre o conjunto mais amplo.
A consciência mística proporciona um reencontro interior entre formas interiores de consciência – ou formas potenciais de consciência. A tônica dessas consciências seria a reconciliação (paz interior?) que poderia ser facilitada pelo transe místico. Todavia nosso psicólogo reconhece a dificuldade de expressar estas idéias, pois são como ele diz “afirmações obscuras”. [JAMES, s.d.: 241]. Outro aspecto muito interessante ressaltado pelo autor é, que no estado estudado, há uma espécie de união com algo maior, arriscaria dizer que muitas vezes uma noção panteísta de união com o todo, ou mesmo diluição neste – exceção feita aos santos cristãos, que se sentiriam recolhidos nos braços Divinos (afirma Jesus: “Eu e o Pai somos um”. Ou Paulo: “andamos e respiramos Nele”). Reproduziremos um dos vários exemplos citados por Willian James [JAMES,s.d.:247]:
Acredito em ti, minha alma…Vaga comigo na relva, desata o nó da tua garganta;…Só gosto da bonança, do zumbir da tua voz aveludada.Lembro-me de como, de uma feita, nós nos deitamos, numa transparente manhã de verãoRápida se ergueu e espalhou à minha volta a paz, e o conhecimento que sobrelevam todos argumentos da terra,E sei que o espírito de Deus é irmão do meu,E que todos os homens já nascidos são também meus irmãos e as mulheres minhas irmãs e amantes,E que a sobrequilha da criação é o amor” Walt Whitmam
Temos ainda a consciência cósmica que é uma:
Consciência do cosmo, i. é, da vida e da ordem do universo. Como a consciência do cosmo ocorre uma iluminação intelectual que, sozinha, colocaria o indivíduo num novo plano de existência – faria dele quase um membro de uma nova espécie. A isto se acrescenta um estado de exaltação, um sentimento indescritível de elevação, júbilo e felicidade, e uma aceleração do senso moral, tão notável e mais importante do que o poder intelectual intensificado. Como eles vêem o que podemos denominar sentido de imortalidade, consciência de vida eterna, não a convicção de que ele terá, mas de que ele já tem. [JAMES, s.d.: 249]
Nas páginas 250 e 251 demonstra como o êxtase místico está na base das grandes religiões mundiais e como se dá seu cultivo metódico através de práticas ritualísticas. Ressaltando que a incomunicabilidade do êxtase é a tônica do misticismo, que a verdade mística existe para quem as tem e para mais ninguém. Todavia há aqueles que tentam mesmo assim dizer este indizível, e entre estes os místicos cristãos ganham destaque pronunciado, para James em suas notações6 – temos principalmente os exemplos de Sta. Tereza d’Ávila, S. João da Cruz e Santo Inácio de Loyola, Eckhart… Ao final de sua conferência sobre o misticismo James destaca as seguintes perguntas, seguidas de sua resposta, vejamos primeiramente as perguntas: podemos invocar o estado místico como autoridade, se fornece ele alguma garantia da verdade do “renascimento”, da sobrenaturalidade e do panteísmo que favorece?
E em seguida encontramos as respostas:
1. Os estados místicos, quando bem desenvolvidos, geralmente são e tem direito de sê-lo, autoridades absolutas sobre os indivíduos que os experimentam.
2. Deles não emana autoridade alguma que obrigue os que estão de fora a lhes aceitarem as revelações sem nenhuma crítica.
3. Eles quebram a autoridade da consciência não-mística ou racionalista, que se baseia apenas no intelecto e nos sentidos. Mostram que esta não passa de uma espécie de consciência. Abrem a possibilidade de outras ordens de verdade, nas quais, na medida em que alguma coisa em nós responda vitalmente a elas, possamos continuar livremente a ter fé. (Grifos nossos ) [JAMES, s.d.: 263].
Concluo o breve estudo relembrando a afirmação de Willian James “de que o misticismo é a base da religião pessoal”, pois é dessa assertiva que nosso próximo pensador parte para fundamentar sua filosofia da religião.
Bibliografia:
ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Lisboa: edições 70, 1984.
_____. Dicionário de Filosofia. México: F.C.E., 1999.
BERGSON, Luis-Henri. As duas Fontes da Moral e da Religião. Rio de Janeiro: Zaar, 1978.
_____. Les Deux Sources de la Morale et de la Religion. Paris: Gallimard, 1932.
JAMES, William. As Variedades da Experiência Religiosa. São Paulo: Cultrix, 1995.

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