29.4.18

"Pra ser honesto só um pouquinho infeliz"

29.4.18

De vez em quando, alguns acontecimentos tendem a retornar e despertar dores. Talvez seja por isso que nunca os revisitamos. Lembrei-me aqui de uma citação de Tolstoy: “Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a chance de me sacrificar por meu amor. Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava segurança em nossa vida tranquila”. Há dores que precisam da nossa atenção. E por mais que a “dor doída” esteja presente no caminhar diário, há sempre sinais vermelhos nos aconselhando a ameaça do acidente. “Igor, você está feliz?” é a constante pergunta que as pessoas me fazem. E elas sempre esperam que meus olhos brilhem e que minha boca profira: “Sim, estou!”. Até porque, quem ama quer ver a felicidade impressa no semblante do amado. Se eu contestar apenas com um “sim”, não terei razões suficientes para legitimá-lo. Sobre isso tive um insight e lembrei-me da canção Giz, do Renato Russo: “Pra ser honesto só um pouquinho infeliz!”. Por isso, todas as vezes que me indagam sobre minha felicidade, permito que um silêncio inunde e reverbere em meu ser. Só depois arremato: “sou um eterno construtor da minha felicidade”. Adélia Prado já proferia: “Não quero pão, eu quero é fome”. Deus me defenda do aprazimento que mata meus desejos! Que as dores dos meus dissabores me arrastem, instigue meus afetos a buscar o meu íntimo desejo: a busca pela essência da minha existência e da minha felicidade. Até que eu não descubra os enigmas dos caminhos que percorro, olhando em cada ato um significado maior, deixando que as dores me reencontrem continuarei a afirmar e cantar: Pra ser honesto sou um pouquinho infeliz!
25.4.18

Os taciturnos bancos da pracinha

25.4.18

Outro dia saí para caminhar, espairecer um pouco, pois precisava respirar outros ares. Já era noite e cheguei à pracinha do bairro. Sentei num de seus bancos e fiquei observando o movimento no calor do meu silêncio. A brisa tocava meu rosto como se fosse ternos beijos. A praça é uma graça. E por menor que seja sempre tem um banco à espera de uma pessoa ou de um acontecimento. Pode ser a flor rosa do ipê que recai sobre o banco, uma coisa cravada no solo, onde ninguém repara na sua pintura, seu modelo, suas minúcias. Mas eles sempre estão ali. Quietos e envergonhados. Vigilantes e fatigados. Fatigados de escutar histórias, de conseguir sustentar o peso de tantos e tantas que por ali passam diariamente. Alguns sentaram, outros deitaram. De todos estes que passaram deixaram um átimo de vida, um pouco de si. 

Ali sentado, reparando os outros bancos que estavam vazios, fiquei ruminando: imagina quantos amores foram gestados e outros pereceram? Será que muitos poetas se esbarraram com os versos perdidos naqueles bancos? Quantas flores daquele ipê caíram e o enfeitaram ainda mais? Quantas vidas foram celebradas com abraços demorados? Aqueles bancos veem a loucura da vida diariamente e assistem tudo isso parados. Eles só se movimentam quando removidos ou esfacelados pela rispidez dos viandantes. 

Ah, eu aguardei histórias ilustres naqueles bancos e elas nunca se manifestaram. Aliás, algumas até vieram. É bem verdade que a gente nunca sabe precisamente as histórias que nos aguardam. Há histórias já contadas. Apenas tiveram um “pause” e foram retomadas. Mas não há razão para perder a esperança. Ela caminha de mãos dadas comigo. O amor não tem necessidade de chegar, o amor já está. Ele já é. Ele é um taciturno banco da praça, sozinho e escabreado que aceita todos que passam por ele, mas só acolhe os que desejam ficar e poetizar a vida.
23.4.18

Poesia abandonada

23.4.18

Poesia abandonada 
Não lida 
Tão linda e sem nenhuma atenção 
Fica perdida, calada, 
Com tanto amor contido. 
O folhei, rascunhei 
Numa estante, estanque 
Em qualquer calçada do mundo, 
À mercê na esquina da existência.
20.4.18

Dança Amazônica

20.4.18


Que toquem os trocanos para a dança, as flautas de pan, maracás, onde todos os guerreiros irão dançar e todas as nações irão celebrar os tambores da Mãe Terra. Desprenda-se de conceitos, preconceitos, formas ou algemas. Aprecie o mito transfigurado em folclore, das encantarias que emanam do ermo amazônico, para habitar na gestualidade da dança.


1.12.17

Tu

1.12.17

Tu és tímido sorriso
De olhar inquietante
Aqui dentro brota uma saudade 
De tudo que me lembra você 
Ah, como eu queria ser poeta! 
Tu serias minha melhor companhia 
E eu te amaria nos versos e reversos 
Dos poemas rascunhados. 
Cá estou eu 
Desejando ser poeta 
Mas nem sei escrever.
E aqui, 
Ao som da fina chuva que cai 
Vou sonhando 
Amando tua timidez 
Teus risos tão ternos,
Teu sotaque tão singular.
Ah, floresce tua presença 
No jardim da minha existência.

João Miguel
Entre notas de rodapé - 2017

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